Minha maior paixão nas culturas japonesa e chinesa

Naquela tarde de dezembro de 2012, não me sentia desconfortável apenas pelo calor típico da época do ano. Estava com dor dente. Morava na Vila Mariana em São Paulo, e a caminho do dentista, vi algo que viria a ser o meu maior hobby.

Era a Associação Cultural dos Provincianos de Osaka Naniwakai. Ali, vi várias propagandas com aulas de karaokê. Que eu sempre gostara de enka, não era mistério. Tanto que minha professora na faculdade sempre dizia “procure um grupo de karaokê, tem muitos em São Paulo”. Naquela tarde de dor de dente, eu finalmente acatei seu conselho.

Suponho que a diversidade cultural e étnica e cultural do Brasil seja de conhecimento comum. O que nem todo conhece é a pujança das comunidades do leste da Ásia em terras paulistas. A maior comunidade japonesa fora do Japão está em São Paulo: são cerca de 400 mil paulistanos de origem nipônica. A isso some-se 100 mil de origem chinesa e taiwanesa, além de 50 mil de origem coreana.

Naquele dia, peguei o celular e liguei para um Sr. Nakashima, presidente de uma banda chamada Sakura Band e professor de karaokê. Comecei a fazer aulas e a cantar com a banda. Não é preciso dizer que minhas performances eram, digamos, débeis à época. Com tempo, paciência e dedicação, eu consegui aprender a cantar sem fazer os cristais se quebrarem.

Aquela ligação ao Sr. Nakashima foi o primeiro tijolo, a pedra angular da construção de uma ponte entre mim e o meu mais verdadeiro. É por meio das canções enka que aprendi a entender minhas esperanças e desesperanças, sonhos e lágrimas. Entre a realidade e a ilusão, há tanto que palavras não podem descrever. Aprendi a descrevê-lo e dar cor ao meu mundo por meio da canção. Isto sem mencionar os amabilíssimos e queridos amigos que fiz neste meio.

Ao escrever estas linhas em novembro de 2020, espera-se que a pandemia de COVID-19 possa realmente estar numa curva decadente e que a Sakura Band possa voltar a realizar nossos saudosos encontros. Enquanto isso, quero compartilhar convosco duas canções que cantei com a banda de duas cantoras que amo até a última célula da alma: Misora Hibari e Teresa Teng.

Diga-se de passagem, eu sou um criador de moda na Sakura Band: um brasileiro, sem ascendência japonesa, que além de cantar em japonês, canta em chinês também.

A canção de Misora Hibari que cantei é Midare Gami みだれ髪 e a de Teresa Teng é Jǐ Duō Chóu 几多愁.

Cabelo bagunçado (midaregami) (Letra: Tetsurou Hoshino)

Ao passar a mão pelo meu cabelo bagunçado / O kedashi vermelho dança ao vento / 
Ódio e amor / Península de Shioya /
O fio de sentimento que jogo e não alcança 
se enrosca no meu peito e me sufoca às lagrimas.
A cinta que na primavera prendia em dois pontos / prendendo em três, sobra outono /
Escuridão sem horizonte / Península de Shioya /
Ilumine meu coração que não posso ver / Não o ilumine assim sozinha.

Quanta melancolia (Ji Duo Chou) (Letra: Li Yu)

Acabarão um dia as flores de primavera e lua de outono? /
Quanto do passado ainda é lembrado? /
Ontem mesmo soprou o vento oriental pelo pequeno pagode /
Insuportáveis são as memórias do antigo país sob o luar.
Parapeitos entalhados e terraços de mármore deveriam existir ainda / 
No entanto as faces que aparecem são diferentes /
Se a mim for perguntado quanta melancolia posso carregar, /
um rio primaveril fluindo ao leste!

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